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Saúde mental do médico: por que quem cuida de todos também precisa ser cuidado
Publicado em 21/10/2026
por Blog UNIFAGOC

Lidar com decisões difíceis, acompanhar pacientes em estado grave, conversar com familiares em busca de respostas e enfrentar situações que nem sempre têm o desfecho esperado faz parte da Medicina, mas também pode cobrar um preço emocional. Por isso, falar sobre saúde mental na área é importante para entender as condições em que esses profissionais trabalham.
Um levantamento realizado em 2024 pelo Afya Research Center ajuda a dimensionar essa questão. No estudo Qualidade de Vida dos Médicos, 39,8% dos 2.005 participantes relataram diagnóstico de algum transtorno mental.
Embora esse dado não permita, por si só, comparar a saúde mental dos médicos com a da população geral, ele ajuda a dimensionar a importância de discutir as condições de trabalho e o bem-estar desses profissionais.
Por que a rotina médica pode afetar a saúde mental?
A carga de trabalho é um dos pontos que ajudam a explicar esse cenário. Plantões, jornadas prolongadas e, em alguns casos, a atuação em mais de um serviço deixam pouco espaço para descanso. No levantamento da Afya, os participantes trabalhavam, em média, 50,9 horas por semana.
Além do tempo dedicado ao trabalho, existe o peso das situações vividas durante os atendimentos. Acompanhar a evolução de um paciente, comunicar um diagnóstico difícil ou lidar com a morte exige preparo técnico, mas também mobiliza emoções.
Quando essas experiências se acumulam, sem tempo suficiente para recuperação, o desgaste pode se tornar mais difícil de administrar. Além disso, mesmo com protocolos e apoio de equipes multiprofissionais, há momentos em que o médico precisa agir rapidamente, avaliar riscos e escolher a conduta mais adequada com as informações disponíveis.
Também existe uma expectativa cultural de que o médico saiba lidar com qualquer situação. Afinal, é ele quem costuma ser procurado quando alguém precisa de ajuda. O problema surge quando essa imagem de segurança passa a significar que o profissional não pode demonstrar cansaço, insegurança ou necessidade de apoio.
Reconhecer o próprio limite permite perceber quando a rotina deixou de ser administrável e quando é hora de buscar ajuda.
Burnout: quando o desgaste deixa de ser passageiro
Depois de uma semana intensa, sentir cansaço é esperado. A situação merece outra atenção quando o esgotamento persiste, o sono não é reparador e até atividades antes satisfatórias passam a parecer difíceis.
O burnout pode estar relacionado ao estresse crônico no trabalho que não foi administrado adequadamente. Entre suas manifestações estão a exaustão, o distanciamento em relação às atividades profissionais e a sensação de menor realização no trabalho.
No estudo da Afya de 2024, 6,7% dos participantes disseram ter recebido diagnóstico de burnout. Outros 27,2% relataram sintomas sem acompanhamento. Entre os profissionais com sintomas, 54,2% associaram o quadro ao excesso de horas trabalhadas.
Dificuldade para dormir, irritabilidade, ansiedade, desânimo e problemas de concentração também merecem atenção quando se tornam frequentes ou começam a interferir na vida pessoal e profissional.
Esses sinais não permitem concluir que existe burnout ou outro transtorno, e é necessário contar com a análise de um profissional de saúde para entender cada caso e fazer o acompanhamento adequado.
O que impede o médico de procurar ajuda?
Um dos obstáculos para buscar por atendimento é encontrar tempo para consultas e manter o acompanhamento em meio a plantões, compromissos profissionais e uma agenda cheia.
Há ainda o receio de que admitir uma dificuldade emocional afete a reputação ou as oportunidades de trabalho. Alguns médicos temem ser vistos como menos preparados ou ter sua capacidade profissional questionada.
O levantamento da Afya identificou que 16,6% dos que relataram diagnóstico ou sintomas de burnout sem tratamento apontaram o receio de impacto na atuação profissional entre os motivos para não buscar acompanhamento.
Esse dado ajuda a entender que o modo como o sofrimento psíquico é recebido no ambiente de trabalho também influencia essa escolha. Se pedir ajuda é tratado como sinal de fraqueza, fica mais difícil falar abertamente sobre o problema.
Onde buscar apoio para cuidar da saúde mental?
O caminho depende do que cada pessoa está vivendo, da intensidade dos sintomas e das condições em que trabalha. Algumas possibilidades, porém, podem ajudar a tornar esse cuidado mais acessível.
A psicoterapia é uma delas, com um acompanhamento que permite falar sobre dificuldades, compreender padrões de comportamento e desenvolver maneiras de lidar com o estresse. Quando há sintomas que exigem investigação ou tratamento específico, a avaliação com um psiquiatra ou outro profissional habilitado pode fazer parte do cuidado.
Conversar com colegas também pode ser importante. Grupos de apoio oferecem espaço para compartilhar experiências com pessoas que conhecem os desafios da profissão.
Programas de bem-estar, acesso a apoio psicológico e espaços seguros para relatar dificuldades são outras iniciativas possíveis. Medidas relacionadas à organização das escalas, ao descanso e à prevenção de situações de violência no trabalho também precisam entrar nessa conta.
A preocupação com a segurança dos profissionais aparece também no âmbito regulatório. Em 2025, o Conselho Federal de Medicina publicou a Resolução CFM nº 2.444/2025, que estabelece medidas de segurança para médicos nas unidades de saúde e prevê a proteção de sua integridade física e mental, incluindo suporte psicológico em casos de agressão.
Embora a norma tenha foco na segurança no trabalho, ela integra uma discussão mais ampla sobre as condições necessárias para o exercício da Medicina.
O cuidado começa antes da vida profissional
A saúde mental não passa a importar apenas quando o médico começa a atender. Durante a graduação, os estudantes já lidam com avaliações, grande volume de conteúdo, mudanças na rotina e contato progressivo com pacientes e situações clínicas.
É uma etapa de aprendizado intenso, em que também se desenvolvem formas de lidar com responsabilidades e reconhecer os próprios limites. Nesse contexto, o ambiente universitário também tem importância na maneira como o estudante atravessa essa fase, encontra apoio e constrói sua relação com a profissão.
No UNIFAGOC, o cuidado com o aluno faz parte de uma formação que considera seu desenvolvimento de maneira integral. Essa perspectiva é importante em uma área na qual o conhecimento técnico precisa caminhar junto com a compreensão das pessoas e das diferentes realidades envolvidas no cuidado.
Ao longo da graduação e da carreira, reconhecer dificuldades e procurar suporte quando necessário são atitudes que ajudam a construir uma relação mais saudável com a profissão. Conheça a formação médica do UNIFAGOC no site.
